Tarô — Ana Jotta
MEEL Press, Lisboa
20.05.2025 — 05.07.2025
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Are any of those eyes of yours tetrachromatic? The Devil asked. He was putting drops in his own which had been bothering him of the late. His eyes were the most extraordinary indigo color. He was vain about that too.
I believe all of them are, Azrael said.
That’s nice, the Devil said.
THE FOURTH CONE [1]
O imediatismo voraz presente no trabalho de Ana Jotta evidencia no recurso ao atalho a certeza de uma alternativa que está longe de pecar pela sua rapidez, antes que se multiplica e se distribui com uma certa disponibilidade vigilante. Existe na sua obra uma constante energização da imagem refém dos gestos sobre si exercidos, uma espécie de aliteração incessante, auto-referencial e independente que concede ao objeto uma possibilidade inesgotável de interpretação. Paradoxalmente, é também este excesso que ensurdece o trabalho de observações finitas, espelhando na obra um reflexo simultaneamente cínico e melancólico entre a autora e a instância pessoal que o encontra a cada momento—equivalendo, evidentemente, a sua maleabilidade conceptual à sua profundamente informada destreza formal.
Apesar de frequentemente reconhecida pela sua aura de enfant terrible, a flagrância plástica da artista não é estranha a uma simultânea timidez no que respeita a ousadia dos seus trabalhos. Ei-la—uma alternância cuja ambiguidade plácida confia à obra um lugar tão irrequieto que não chega a ficar quente. Perante o exercício constante de avanços e recuos entre a obra e a vida, Jotta conduz um merry-go-round de citações e afinidades metonímicas, não só verdadeiras pelo seu cariz pessoal, mas principalmente pela exploração da patina ficcional inerente à própria vida.
Em Tarô, convive com a estranheza das imagens referenciadas (i.e. apropriadas, resgatadas) o encanto de uma linguagem encriptada mas sem enigma. Sucede-se, em cada uma das quatro gravuras, a sobreposição de dois desenhos aos quais invariavelmente se propõe um processo de hierarquização. Afinal, ambos os contornos da madeira e as inscrições da artista na sua superfície encontram lugar na imagem final; mas Dominicis está aí—o artista que recusa a reprodução inspira a premissa de uma série de múltiplos. Seria imprudente consentir a aleatoriedade de um conjunto de imagens que compõem um trabalho com este título, por demais verificando a dissemelhança na sua origem (a presença da matéria natural única em cada chapa vis à vis a introdução de um conjunto de ideogramas inesgotáveis sobre ela). É, contudo, apenas na aceitação dessa desordem que é verosímil delinear sentidos nesse compromisso à sorte.
A cegueira convoca Rodolphe Töpffer e consigo o início da ilustração em sequência no século XIX, aqui contrastando uma aparente perda física (a visão) com um rosto que sorri. Infelizmente, não é triste. A obsessão pela imagem devolve uma imagem que não se vê mas que existe. J’ai beau être un artiste, mais je suis quand même très triste parece ser uma provocação a essa mesma fome de ver. Cartolas, candelabros, vestidos e mãos são intercetados pela elasticidade da própria linguagem vulgar que tentam, infrutuosamente, encerrar. Parafraseando a artista, é tomada a decisão monstruosa de misturar a sensibilidade da madeira com a brutalidade de uma imagem pré-feita e universal. Consintamos um ato monstruoso como um gesto energético, quase eufórico, de fuga à alienação.
Refletir sobre a obra de Ana é inverter os modos sobre os quais fomos ensinados a pensar, é um constante reorganizar de cartas cujo baralho sempre se torna a misturar. Provido de uma heterogenia idiossincrática particularmente difícil de classificar, é imperativo entender que no trabalho da artista é incerta a complexidade de um acaso, pois se para cada caso as regras mudam. Trata-se de vislumbrar na clareza, a dúvida; na certeza, a incerteza; e na resposta, a pergunta.
[1] Williams, Joy, Concerning the future of souls, Tuskar Rock Press, London, 2024, p. 90.