Fin de Siècle — Francisco Tropa

MEEL Press, Lisboa

24.11.2023 — 25.01.2024

Resumida à sua condição mais pura, a imagem fotográfica é uma luz que atravessa um espaço e que repousa, simbolicamente, numa superfície. Num primeiro instante, o conjunto de imagens apresentadas por Francisco Tropa parece pairar entre o desenho, a emulsão, a escultura e a técnica finda que ora as materializa – a fotogravura. A velatura dos seus corpos aparenta diluir-se entre a liquidez da abstração e o peso da construção, que tanto se revela no seu desvelamento concreto – um copo, uma lente, três pedras –, como na sua indecifrabilidade poética – manchas, movimentos e reações que desenham sobre a superfície capturada.

Transversal a todos os trabalhos reside a ideia de Fin de Siècle, uma espécie de estranho contratempo histórico e artístico onde a exaltação de um aparente positivismo se interpela com a iminência de um sentimento de decadência perante as duas últimas décadas do século XIX. Em 1893, Hugo von Hoffmannsthal, o poeta do silêncio[1], escrevia o seu O Louco e a Morte (Der Tor um der Tot) – título homónimo da imagem que sucede a sombra clara de três volumes escultóricos e o feixe de luz a atravessar um rasgo de papel, que iniciam e terminam, respetivamente, a primeira sequência dos trabalhos. No texto cénico, um jovem e solitário esteta é visitado pela figura da Morte que o acompanha numa sucessão de encontros com padecidos, enfatizando a sua incapacidade de envolvimento emocional com os seus pares. Paradoxalmente, apenas o momento último da sua morte parece ser o seu primeiro momento de vida. Aqui, a alegoria entre a personificação de um louco face à representação da morte evidencia uma espécie de memento mori perante a frivolidade da vida, mascarada sob o jogo de uma danse macabra perfeita, onde o único que escapa a armadilha do fim é o que não entrega a sua mão, seduzindo o destino que o tenta enganar. Também a imagem, resultante do desenho sobre uma superfície enegrecida com fumo, conduz o movimento reativo e aparentemente constante de uma realidade em simultânea redenção e transformação. 

Com uma dinâmica formal semelhante, surge Gradiva, uma imagem cuja enigmática qualidade pictórica a aproxima do mistério envolto na figura que lhe dá nome. A mulher que caminha surge como fonte de intenso fascínio e perturbação psicológica igualmente na viragem do século em que nos focamos, aparecendo no romance do mesmo nome de Wilhem Jensen[2] – posteriormente analisado por Freud no seu O Delírio e os Sonhos na Gradiva de W. Jensen (1907). A história de obsessão de um arqueólogo sobre a trasladada figura num baixo-relevo romano inspira no psicanalista uma análise profunda relativamente à influência dos sentimentos suprimidos que se enraízam no inconsciente do sujeito em delírio, invadindo-o. Figura mitológica moderna, Gradiva desencadeia, evidentemente, uma adoração exacerbada pela parte dos surrealistas e dadaístas do início do século XX, que vislumbram na personagem feminina uma musa sensual e mística. Gradiva caminha por entre o fumo, de ele surge e nele repousa, abstraída das imagens que a centram e que a informam. Um copo de água que parece espelhar metade do seu corpo e uma lente que amplia – ou distorce – o que aparenta ser o copo-corpo que a antecede.

Francisco Tropa tece e captura, anula e subverte aquilo que são alguns dos princípios, métodos e figuras icónicas da história da imagem e da cultura visual. Através da experimentação para além dos estágios da estranheza, retribui aos objetos a sua qualidade misteriosa ancestral, convocando o fascínio puro pelos signos e fenómenos extraordinários que inspiram o culto da imagem. Miragens de Holbein a Ensor, de Shakespeare a Duchamp. De facto, será pouco o que separa o carácter mágico das imagens que compõe Fin de Siècle, das naturezas mortas a que se aproximam. Talvez somente uma forma de construir e de olhar, ou de encarar a viragem de um momento para o outro.

[1] Alcunha atribuída ao escritor após cessar a sua atividade literária.

[2] Gradiva: Uma fantasia pompeiana, 1902

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