Ler Paisagem — Fernanda Fragateiro

VNBM, Viseu

13.12.2025 — 13.03.2026

Muito frequentemente, tem existido um constante acompanhar da obra plástica de Fernanda Fragateiro a par de um pensamento arquitetónico. Não será certamente um entender paralelo (isto é, não pressupõe que existe dentro de si uma arquiteta), antes uma espécie de convocação histórica, teórica e formal sobre a presença que a arquitetura detém no trabalho da artista. Esta afinidade é consensualmente visível e teorizada, não só pela qualidade conceptual da obra, como também pela própria natureza da sua prática artística—disciplinada, háptica e escultórica— sem, contudo, encerrar o trabalho na exclusividade dessa mesma relação. No entanto, poderíamos considerar que existe com a mesma intensidade da lógica mencionada, um outro reverberar do seu fazer numa tendência mais concretamente focada numa procura do eterno no transitório e, neste sentido, surge no seu trabalho uma preocupação poética e de reinvenção formal que gostaria de equiparar à prática ensaística. Ou, talvez mais assertivamente, à qualidade plástica do ensaio que ora se debruça perante os fenómenos da arquitetura.

Possivelmente derivado da sugestão do próprio título da exposição—que, não nomeando ações de habitabilidade ou construção, determina no processo de leitura o transcendental de uma paisagem—este pensamento insurge-se como uma forma análoga de acompanhar o trabalho e de compreendê-lo segundo a intimidade pressuposta na escolha de fragmentos vis-à-vis um total. Pontuada pelo repousar levitado de um conjunto de obras referentes à série Writing architecture, a exposição consolida o que tem vindo a ser o tecer deleve de superfícies marcadas pela acoplação de centenas de folhas de papel guilhotinado (i.e., uma mancha mais negra indica uma maior presença de texto a par de que uma mais colorida evidencia uma acentuada soma de imagens). Provenientes de um arquivo pessoal de revistas de arquitetura do século passado (i.e., Domus, The Architectural Review, Arquitectura), estes elementos são estudados e recalibrados segundo uma lógica de composição cromática e de fisicalidade escultórica que lhes concede um novo rosto, simultaneamente, a cada nova decisão de organização interna (imagem) e de montagem externa (forma). Neste caso, afastando-os subtilmente do habitual objeto escultórico e cedendo-lhes, pela determinação do dispositivo, uma aproximação ao desenho. Contudo, é no apesar da sua velatura que reside o vestígio do enigma (que sobremaneira se aproxima de uma arqueologia moderna, ou de uma paesine), omitindo o seu conteúdo, mas a si recorrendo para a construção de uma nova leitura, ausente de palavras e predominantemente visual. Retomando a predisposição ensaística anteriormente aludida e incorrendo numa analogia declaradamente literal, nenhum dogma ultrapassa a superfície da textura [1].

 Maison Ellipse de Eileen Gray é uma impressão fotográfica de 2017. Nela, um artigo sobre Eileen Gray numa edição da revista Domus de 1968 atua como base para um desenho da artista a partir de um projeto arquitetónico da designer e arquiteta irlandesa do fin de siècle. Conceptualizada como um pré-fabricado, esta é apenas uma das maquetes presentes no perfil publicado sobre a autora e que inclui, entre outros, um projeto de casa-estúdio para dois escultores. Apesar de ter assistido a algum reconhecimento em vida, é com esta edição que a crescente obliteração do seu nome começa a ser vencida, então recontextualizando-a como uma pioneira do design. Em minoria, mas atuando como um pêndulo na exposição, este trabalho apresenta o indício do que se poderia, possivelmente, encontrar dentro das páginas das revistas que, agora recortadas e transeuntes a uma nova configuração, se encontram no espaço em seu torno. Não obstante, alude também à escassez de homenagens tão verdadeiramente dedicadas a um legado feminino, como que encerrando o entendimento de uma prática muito autoral de Fragateiro que congrega preocupações derivadas da representatividade na História da Arte, referências às vanguardas russas e norte-americanas e incursões estéticas para além do seu teor formal.

 [1] Woolf, Virginia, em The Modern Essay, 1925.

Anterior
Anterior

Jorge Martins — Porque já não há palavras surgem as formas

Próximo
Próximo

Cérebros, distantes — Nuno Cera