Jorge Martins — Porque já não há palavras surgem as formas
Galeria Neupergama, Torres Novas
29.11.2025 — 28.02.2026
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Raras são as vezes em que a obra de um artista se manifesta tão consistentemente plural ao longo de uma carreira. Incessante, irónica, coerente e melancólica, a prática de Jorge Martins (Lisboa, 1940) é um exemplo vivo desta mesma destreza autoral destemida e desprovida de artifícios ou subterfúgios formais. Frequentemente movido por uma predisposição atenta para as questões da luz, do espaço e do tempo, o artista parece encontrar a cada novo trabalho uma razão (ou talvez mesmo, um entendimento) para o seu objeto antecedente. Poder-se-ia considerar que este reconhecimento ulterior da obra é, precisamente, a tendência que o move para além de qualquer expectativa conceptual ou plástica. De alguma forma infinita, é na irredutibilidade da obra que encontramos uma perpétua possibilidade de transformação e desvelamento perante as suas mais incólumes transversalidades estilísticas—desde um princípio tacitamente caracterizado por um certo naturalismo abstrato, a um culminar muito mais próximo do que se poderia laconicamente nomear de minimalismo pop. A presente exposição (que marca conspicuamente os quarenta e cinco anos de atividade da galeria) revela efetivamente isso, a unidade e lógica surpreendentes de um trabalho construído sobre a premissa inesgotável da procura.
Construindo uma espécie de inventário de formas e gestos do artista, os trabalhos ora reunidos aproximam-se entre si apesar da distância causal ou serial que lhes é interna. Este consenso é em grande parte possível pela perspicaz seleção de obras que constituem a exposição e que concedem à cadência física e lumínica do conjunto uma dimensão lexical muito própria, dimensão essa onde o desenho se apresenta (como aliás sempre o foi no trabalho do artista) enquanto a mão que instrui o olhar. Velaturas e correspondências internas parecem dissolver-se por entre as inflexões—ora rasantes, ora sinuosas—do trabalho da sombra na patina do tempo. Sobreposições de linhas e nevoeiros de espaços aparentam reconfigurar-se para além da sugestão da figuração até se diluírem em montes ou nuvens secas. A ausência da cor, muitas vezes relegada em exclusivo à pintura, refrata-se da mesma forma que a luz, desta vez em meios tons ou incursões em manchas de corpos despojados de nome. A hesitação presente nos trabalhos é-lhes conferida mais assertivamente do que à partida se poderia crer, concedendo-lhes uma certa qualidade astral que os mantém vivos, vibrantes e incertos na sua permanente errância nos espaços a si externos. A pintura que acompanha estes desenhos é, portanto, incluída como uma presença simultaneamente disruptiva e certeira na evanescente materialidade que lhes é comum, não obliterando completamente a linha (ou o traço) mas reconvocando o contratempo da luz que ademais se divide e transforma a sombra em cor.
Como um enigma que se refrata e distribui por entre as subcamadas, fundos e deformações das manifestações deformadas das imagens, ambos pintura e desenho sugerem princípios de reconhecimento que, apesar de heteronímicos, se repetem ou se cruzam no interior de cada trabalho. Da mesma forma, determinados fragmentos isolados sussurram entre si composições semelhantes às que encontramos em alguns trabalhos de escala e complexidade acentuada, como que anuindo a uma vontade latente, por vezes oscilante, de recolhimento e expansão sincopados.