Through Wet Air — Catarina Dias

Pavilhão Branco, Museu de Lisboa, Lisboa

17.07.2024 — 13.10.2024

On Holderlin’s World Night Wound

King Oedipus may have had an eye too many,

Said Holderlin and kept climbing. Above the

Tree line is as blank as the inside of a wrist.

Rock stays. Names stay. Names fell on him, hissing.[1]

Uma casa em chamas poderá ser o mais ínfimo símbolo de nudez. A fosforescência enquanto evidência última da vida dentro de um corpo que se encontra desvelando-se, reconstruindo-se sobre a essência da intuição. De um certo modo, poderíamos dizer que apenas nessas circunstâncias a imagem se dispõe verdadeiramente presente, despojada — nessa arena sem tempo onde o passado e o futuro são unos e, contudo, também duplos da sua própria consequência, cegos ao contorno do espírito e do corpo por vir.

Como noturnos, assim os trabalhos sobre papel de Catarina Dias (Londres, 1979) parecem segurar sussurros em constante transformação. Transcendendo o seu imediato, as imagens são como recuos constantes da sua perceção, são o Eu contra si próprio na vacuidade da noite que tudo contém na sua simplicidade[2]. Ora, se na duplicidade encontramos o devir do consciente para o inconsciente tão firmemente consentido como uma presença divina, tanto quanto um presságio nefasto, igualmente nos segredos das imagens essa qualidade indelével se transforma num dilema fascinante e terrível sobre a sua verdadeira essência.

Presenciando-se simultaneamente no interior e no exterior do edifício que alberga Through Wet Air (o Pavilhão Branco no Museu de Lisboa), Sem Título—uma impressão sobre pano a grande escala de uma imagem que arde—atua singelamente como chave fulcral para um maior entendimento da exposição, nomeadamente através da sua singularidade perante as restantes obras presentes. A sua pluridimensionalidade formal detém-se, não só no seu estratégico posicionamento numa parede de vidro—que tanto fecha como abre a imagem gravada para os dois campos do avesso arquitetónico—, como na própria ambiguidade da sua natureza plástica que, contendo e devolvendo a visão sinóptica de uma catástrofe, desenvolve uma muita particular cadeia simbólica, por sua vez circular. O fogo nada esconde senão o próprio fogo e, nesse sentido, nada, portanto, esconde. Apesar de duplicada, a obra não oculta uma antítese à sua salvação, antes expõe uma constância e relatividade perante a sua evidência hic et nunc—a exposição termina e começa nesta transparência flamejante e sobre ela se desmonta a aparente instância dos demais trabalhos em papel, cujos cúmplices se tentam perpetuamente encontrar.

De uma liquidez feita plano, materializam aquilo que tacitamente se declara como o verso de um murmúrio entre a sombra e a luz, em instantes reconfigurando-se para de si se evadirem. No fundo, se num primeiro momento é a qualidade formal dos objetos que se desdobra e revela—evidenciando o desenho interno a cada uma das composições—é, contudo, numa segunda instância, que a estranheza perante essa forma reage à adversa tentativa de deciframento dos seus movimentos cortantes e inquietos, transbordando-se para a imagem poética. Trata-se de corpos de palavras. Massas verdadeiramente presentes da linguagem—aqui sobrepostas, derrubadas e encobertas na inevitabilidade do seu vestígio adivinho—, sons feitos matéria na luminescência que sobrevive à sua ausência.  As imagens a acrílico sobre papel, desfazem-se e tornam a surgir com a mesma leveza empática da palavra made flesh [3], como se ao dissimular a sua anunciação a artista preservasse o segredo da sua essência. Fá-lo, através de uma prática constante e assertiva, ao escolher manter ininterrupto o instante singular da transfiguração. Ao conceber esse momento, a artista permite-se à transcendência da própria imagem que, ao invés de conter em si a compreensão do seu signo, expressa antes a sua totalidade enquanto forma poética. Manifestamente abstrações oriundas do verbo, por si só justapostos às obras nos seus títulos, estas obras são desenhos-pinturas onde o aguçamento da palavra as torna, subitamente, indiferenciadas. De alguma forma sem consciência de si, acontecem diligentemente nos seus contornos plásticos—então disformados e reorganizados numa nova harmonia plástica—, estes sim fruto da experiência da consciência, não enquanto conteúdo, mas enquanto forma.

Se, por um lado, a sua complexidade originária (isto é, lexical), se detém secundária à sua complexidade final (isto é, visual), por outro, é precisamente a sofisticação, duração e ritmo da palavra anterior à imagem que condiciona e propõe o reconhecimento posterior da sua desconstrução. Mais do que maestras do gesto e da pigmentação—ora fosforescentes, ora soturnos, com nuances mais ou menos contornadas—as palavras regem a supra-individualidade da imagem relativamente à sua compreensão tátil interior, e não retórica. Esse momento, por vezes sugestivo—NAKED, LIKE JESUS—, por vezes evocativo—AS WILD ANIMALS, THROUGH WET AIR—, trata-se, evidentemente, de uma elação fascicular e, em certos momentos, provocadora perante a inapreensibilidade do símbolo encarregue de a transcrever. Por outras palavras, este pensamento procede não por redução do múltiplo ao uno, mas pela explosão do uno para o múltiplo, ou melhor dizendo, ele é na verdade, num segundo tempo, a unidade deste múltiplo [4]. Como um pressentimento vital, é a palavra da artista a originar a imagem que, aliada ao mistério do oculto que a antecede, a permite perseguir o secreto fantasma metafísico estreito à sensibilidade que dá corpo a uma e outra coisa.

Aqui repousa o enigma referente às qualidades corpóreas do invisível nestes trabalhos, escorregando gentilmente por entre as linhas da perceção—anacrónica, cruzada, multidisciplinar e evocativa. Como ecos de uma chama, os trabalhos de Catarina Dias são desenhos de um rigor sem nome, objetos envoltos de afinidades e reverberações plásticas e poéticas, cujas velaturas espectrais e temperaturas veladas desmontam suavemente as paredes e tetos da sua íntima acuidade sensorial.   

[1] Carson, Anne, in Plainwater, Penguin Books, 1995.
[2] Tradução livre de Hegel and the Human Spirit. A translation of the Jena Lectures on the Philosophy of Spirit (1805-6), Wayne State University Press, 1983.
[3] Também título de um trabalho da artista presente na exposição (MADE FLESH, 2023, acrílico e guache sobre papel, 76,5 x 57 cm).
[4] Chevalier, Jean, in O Dicionário dos Símbolos, Teorema, 1982.

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