Vis-à-vis — Francisco Tropa e Ana Jotta
Appleton, Lisboa
12.12.25—10.01.26
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1.
Retomando ao início da longa colaboração entre Francisco Tropa e o atelier Meel Press, o conjunto de gravuras Tenda, Adão e Eva marca a primeira edição de artista feita pelo gravador Hugo Amorim. Utilizando as mãos e os pés enquanto os instrumentos que deixam as marcas que constroem o desenho segundo um processo de água- forte, as três imagens remontam à presença de uma figura acéfala no surgimento de duas entidades canónicas da tradição judaico-cristã, Adão e Eva. Pertencendo ao conjunto de trabalhos que determinam a Assembleia de Euclides (um projeto dividido em três exposições), a imagem em tenda referencia a escultura homónima de 2005, onde numa espécie de tenda rudimentar se encontram três recipientes com substâncias químicas destinadas ao processo de revelação das fotografias realizadas no contexto da performance O transe do ciclista.
2.
Miss America é uma edição de fotogravura realizada este ano (2025). Composta por três chapas distintas que perfazem a imagem de um candeeiro a petróleo (i.e., uma primeira tintada a amarelo, uma segunda a magenta e uma última a negro), materializam um corpo cuja sinuosidade se assemelha à figura de um modelo feminino. Da mesma forma, também a semelhança destes traços com a primeira garrafa da Coca-Cola evidencia a relação definida entre o seu desenho e o contorno do corpo de Mae West (figura icónica da cultura visual americana a partir da década de 30 do século passado e alegada inspiração para a marca), estabelecendo linhas de tensão entre uma espécie de sugestão erótica na latência do consumismo americano.
3.
No portfólio PASIPHAE & ETC., de 2021, reúnem-se onze gravuras usando a técnica do verniz-mole onde imagens se desenvolvem (segundo um pensamento de diluição e desfasamento) a partir da figura reclinada de Pasiphae (figura mitológica frequentemente referenciada enquanto mãe do Minotauro). Símbolo apropriado pelos surrealistas e expressionistas pela sua qualidade primordial, atinente ao subconsciente e relativa à junção entre a natureza animal e humana, Pasiphae é a matriz que pressupõe um conjunto de alusões que rapidamente se rejeitam e transformam em matérias abstratas. Seguindo a impressão da não cristalização do desenho perdido a cada conclusão, encerram no processo da sua procura a determinação de uma sequência de imagens que nunca se suprimem mutuamente.
4.
Em 2016, é iniciado um processo de colaboração entre Ana Jotta e o atelier Meel Press (então exclusivamente representado pelo gravador Hugo Amorim) e de onde resulta um conjunto de cinco séries de trabalhos, quatro dos quais se encontram representados na presente exposição (4, 6, 7 e 8). Sem título (“perguntei-lhe”, entretanto”, “logo depois”, “vi, então”) compreende um grupo de quatro gravuras a ponta seca provenientes da impressão sucessiva da mesma chapa alterada e intensificada a cada momento de impressão. Não se tratando de uma edição, cada imagem pressupõe a construção da seguinte segundo o consentimento e anulamento da anterior. Um homem dorme e trabalha, assim a artista.
5.
Transversal às seis fotogravuras que compõem esta série de 2023 reside a ideia de Fin de Siècle (por sua vez, o título do conjunto de trabalhos)—uma espécie de estranho contratempo histórico e artístico onde a exaltação de um aparente positivismo se interpela com a iminência de um sentimento de decadência perante as duas últimas décadas do século XIX. Através da experimentação para além dos estágios da estranheza, Tropa retribui aos objetos anunciados a sua qualidade misteriosa ancestral, convocando o fascínio puro pelos signos e fenómenos que inspiram o culto da imagem. Miragens de Holbein a Ensor, de Shakespeare a Duchamp, são subvertidas perante a memória de Von Hoffmansthal e Freud, ou pelo resgate da danse macabre e da obsessão surrealista pela figura de Gradiva, aparentando a diluição da velatura dos seus corpos entre a liquidez da abstração e o peso da construção.
6.
Como se fosse um acordeão a tocar (A.J.)—de tons, variações e ritmos—, as imagens de Rififi das Toucas representam uma seleção de nove em dezassete gravuras a ponta seca concretizadas no decorrer de 2017. O seu movimento interno é caracterizado pela alternância simultânea entre duas variações do desenho, bem como pela sua irregular evidência cromática. Referenciado um género de cinema francês característico da década de 50 do século passado, o seu nome é consensualmente reconhecido enquanto expressão de conflito ou diálogo entre duas partes. Neste caso, as duas figuras que se alternam poderão ser identificadas como corpos de duas toucas que pressupõem, foneticamente, o duplo sentido da palavra enquanto acessório de vestuário (touca) ou lugar de refúgio (toca).
7.
E agora? (2017) é a prova única de uma gravura a ponta seca. Determinando o início de um processo que culmina com o trabalho quando cheguei (uma edição de água-tinta a ponta seca não presente na exposição), E agora? é anterior a Love que, quando reutilizada enquanto plano de fundo, atua como uma junção dos dois trabalhos sem, contudo, referenciar a conclusão do seu resultado (quando cheguei).
8.
Gravada a ponta seca em 2017, Love determina uma trama encerrada pela acumulação, anulação e excesso de um conjunto de desenhos existentes, posteriormente, à mancha quase uniforme que se verifica na impressão final. Como o reconhecimento do próprio amor, o seu descomedimento esconde tudo o que se passou, no final. That’s life, that’s love (A.J.).
9.
Em Tarô (um conjunto de quatro xilogravuras concretizadas no ano vigente), convive com a estranheza das imagens referenciadas (i.e. apropriadas, resgatadas) o encanto de uma linguagem encriptada, mas sem enigma. Sucede-se, em cada uma das quatro gravuras, a sobreposição de dois desenhos aos quais invariavelmente se propõe um processo de hierarquização. Afinal, ambos os contornos da madeira e as inscrições da artista na sua superfície encontram lugar na imagem final. Seria imprudente consentir a aleatoriedade de um conjunto de imagens que compõem um trabalho com este título, por demais verificando a dissemelhança na sua origem (a presença da matéria natural única em cada chapa face a introdução de um conjunto de ideogramas inesgotáveis sobre ela). É, contudo, apenas na aceitação dessa desordem que se permite o delinear de sentidos perante a evidência de um compromisso à sorte.