História e Utopia — Mingyu Wu
Irmã Feia, Almada
19.09.2024 — 03.11.2024
…
Longitudinalmente, dentro: o eco conservado no tempo; símbolo, espaço e forma cúmplices na sua inseparabilidade. Espera-se, de uma visão desenganada da escultura, a evidência do equilíbrio entre as dimensões física e espiritual seladas na transitoriedade (passado e futuro, símiles) das imagens imóveis. Objeto de uma orientação pura devolvida às linhas de força da simplicidade — estrutural e formal —, o trabalho de Mingyu Wu habita o movimento subtraído do tempo, desvendando-se na sequência ininterrupta da sua perceção.
Dum canivete mostra uma unha o segredo,
Apôr sob uma alínea um traço muito frágil. [1]
Na perspetiva relativa do entendimento das suas esculturas repousam pontos, linhas e volumes que constroem um espaço não palpável em seu redor, como que torneando uma espécie de energia invisível aos corpos anunciados. Esse fluxo (que em qualquer instância se poderia revelar, simplesmente, um vazio) oscila perante a exposição como um pêndulo afiado, afinado sob as métopas que unem os objetos no espaço e que refletem entre si vislumbres muito particulares de sombra e luz. Permeáveis à alusão figurativa e simbólica que antecede a sua contemporaneidade, as esculturas persistem na sua imaterialidade (inexplicável e indefinível) e emanam murmúrios ocasionais de imagens, grifos e ideias transcendentes à acuidade dos seus contornos visuais. Estes, apesar de profundamente informados por uma racionalidade plástica e formal — presente, aliás, na clara resolução de transições de plano, de uma para outra face, nunca as cegando —, declaram as suas influências experimentais na constante afinidade com processos de transformação. Das suas diferentes velaturas, pigmentações e cozeduras (por vezes indetetáveis e acidentais) emerge, concomitantemente, uma certa estética do vestígio traçado pela intemporalidade da matéria (i.e., o barro) que pretende, dentro da sua absoluta e cosmológica natureza, redescobrir o instante que fugiu.
Existe, para além do sentido oculto reservado nestas imagens, uma solenidade antiga — fúnebre, arquitetónica, linguística — que as permeia de uma aura mística e fascicular. Cruzando-as e acompanhando o seu movimento perene, observamos a elegância oriental de um templo pagode, guardião e divino — hirto —, erguido sob égide de uma montanha sagrada que, ao desdobrar-se perante o seu limite, se projeta no repouso de uma ferramenta primitiva, cortante e inofensiva na sua evanescência. Similarmente, segmentos e oscilações momentâneas parecem reconhecer ruínas etruscas e torsos cicládicos na sua leitosa e sinuosa composição vis-à-vis a contrastante forma do seu espectro dotado de uma atitude aguçada e irrevogavelmente moderna. Se é a preponderância quimérica a atrair para este trabalho a dualidade de uma plasticidade orgânica e fabril é, por sua vez, a sua alternância conceptual (no que diz respeito a pesos, vazamentos e luminescências) a conceder-lhes a simultaneidade de uma aparência fugaz e eterna — o memento mori indissociável da sua condição.
Nunca é a sua luz escurecida
e toda a claridade lhe é devida,
mesmo se é noite. [2]
[1]Roussel, Raymond. (1909). Impressões de África. Lisboa: VS., 2018, p.85. Tradução: Luiza Neto Jorge
[2] S. João da Cruz. (Séc. XVII). S. João da Cruz Poesias Completas. Lisboa: Assírio e Alvim, 1990, p. 61. Tradução: José Bento